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EMRC-Mirandela

Contributos para a Educação Moral e Religiosa Católica do Agrupamento de Escolas de Mirandela



Quarta-feira, 21.11.12

Os professores

Achei por muito tempo que ia ser professor. Tinha pensado em livros a
vida inteira, era-me imperiosa a dedicação a aprender e não guardava
dúvidas acerca da importância de ensinar. Lembrava-me de alguns
professores como se fossem família ou amores proibidos. Tive uma
professora tão bonita e simpática que me serviu de padrão de
felicidade absoluta ao menos entre os meus treze e os quinze anos de
idade. A escola,como mundo completo, podia ser esse lugar perfeito ...
Ver maisde liberdade intelectual, de liberdade superior, onde cada
indivíduo se vota a encontrar o seu mais genuíno, honesto, caminho. Os
professores são quem ainda pode, por delicado e precioso ofício,
tornar-se o caminho das pedras na porcaria de mundo em que o mundo se
tem vindo a tornar. Nunca tive exatamente de ensinar ninguém. Orientei
uns cursos breves, a muito custo, e tento explicar umas clarividências
ao cão que tenho há umas semanas. Sinto-me sempre mais afetivo do que
efetivo na passagem do testemunho. Quero muito que o Freud, o meu cão,
entenda que estabeleço regras para que tenhamos uma vida melhor, mas
não suporto a tristeza dele quando lhe ralho ou o fecho meia hora na
marquise. Sei perfeitamente que não tenho pedagogia, não estudei
didática, não sou senão um tipo intuitivo e atabalhoado. Mas sei, e
disso não tenho dúvida, que há quem saiba transmitir conhecimentos e
que transmitir conhecimentos é como criar de novo aquele que os
recebe. Os alunos nascem diante dos professores, uma e outra vez.
Surgem de dentro de si mesmos a partir do entusiasmo e das palavras
dos professores que os transformam em melhores versões. Quantas vezes
me senti outro depois de uma aula brilhante. Punha-me a caminho de
casa como se tivesse crescido um palmo inteiro durante cinquenta
minutos. Como se fosse muito mais gente. Cheio de um orgulho comovido
por haver tantos assuntos incríveis para se discutir e por merecer que
alguém os discutisse comigo. Houve um dia, numa aula de história do
sétimo ano, em que falámos das estátuas da Roma antiga. Respondi à
professora, uma gorduchinha toda contente e que me deixava contente
também, que eram os olhos que induziam a sensação de vida às figuras
de pedra. A senhora regozijou. Disse que eu estava muito certo.
Iluminei-me todo, não por ter sido o mais rápido a descortinar aquela
solução, mas porque tínhamos visto imagens das estátuas mais
deslumbrantes do mundo e eu estava esmagado de beleza. Quando me
elogiou a resposta, a minha professora contente apenas me premiou a
maravilha que era, na verdade, a capacidade de induzir maravilha que
ela própria tinha. Estávamos, naquela sala de aula, ao menos nós os
dois, felizes. Profundamente felizes. Talvez estas coisas só tenham
uma importância nostálgica do tempo da meninice, mas é verdade que
quando estive em Florença me doíam os olhos diante das estátuas que
vira em reproduções no sétimo ano da escola. E o meu coração galopava
como se estivesse a cumprir uma sedução antiga, um amor que começara
muito antigamente, se não inteiramente criado por uma professora, sem
dúvida que potenciado e acarinhado por uma professora. Todo o amor que
nos oferecem ou potenciam é a mais preciosa dádiva possível. Dá -me
isto agora porque me ando a convencer de que temos um governo que
odeia o seu próprio povo. E porque me parece que perseguir e tomar os
professores como má gente é destruir a nossa própria casa. Os
professores são extensões óbvias dos pais, dos encarregados pela
educação de algum miúdo, e massacrá-los é como pedir que não sejam
capazes de cuidar da maravilha que é a meninice dos nossos miúdos. É
como pedir que abdiquem de melhorar os nossos miúdos, que é pior do
que nos arrancarem telhas da casa, é pior do que perder a casa, é pior
do que comer apenas sopa todos os dias. Estragar os nossos miúdos é o
fim do mundo. Estragar os professores, e as escolas, que são
fundamentais para melhorarem os nossos miúdos, é o fim do mundo. Nas
escolas reside a esperança toda de que, um dia, o mundo seja um
condomínio de gente bem formada, apaziguada com a sua condição mortal
mas esforçada para se transcender no alcance da felicidade. E a
felicidade, disso já sabemos todos, não é individual. É
obrigatoriamente uma conquista para um coletivo. Porque sozinhos por
natureza andam os destituídos de afeto. As escolas não podem ser
transformadas em lugares de guerra. Os professores não podem ser
reduzidos a burocratas e não são elásticos. Não é indiferente ensinar
vinte ou trinta pessoas ao mesmo tempo. Os alunos não podem abdicar da
maravilha nem do entusiasmo do conhecimento. E um pais que forma os
seus cidadãos e depois os exporta sem piedade e por qualquer preço é
um país que enlouqueceu. Um país que não se ocupa com a delicada
tarefa de educar, não serve para nada. Está a suicidar-se. Odeia e
odeia-se.


V.H.Mãe

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por Carla às 20:20



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